A correria integrada no quotidiano da sociedade deu ao tempo o significado de trabalho. Trabalhar em excesso deixou de ser uma escolha pessoal e passou a ser uma forma de pertença e de prova de valor num sistema que mede tudo em função do desempenho.
Na estrutura social atual, é imposto encontrar uma função ou um cargo que, para além de ser uma fonte de remuneração, habitualmente se torna a principal ocupação de um indivíduo. Todos nos encontramos inseridos num meio onde procuramos traçar um caminho, agindo com gosto e propósito.
“Overworking”: Quando foi que o cansaço passou a ser vergonha?
Nos últimos anos, tem-se assistido à romantização do cansaço. Este passou a ser visto como um símbolo de valor, como se estar sempre ocupado e exausto fosse sinónimo de relevância, ambição e admiração. As redes sociais, blogs, podcasts e outras plataformas de partilha de conteúdos têm difundido discursos como “dar tudo”, “fazer acontecer” ou “trabalhar até cair”, que acabam por mascarar práticas tóxicas de autoexploração. Vive-se, cada vez mais, com a angústia de não estar a fazer tudo o que poderia ser feito. A cultura do overworking expõe uma insegurança coletiva perante a liberdade, a mudança, o erro e até o lazer. O problema não é trabalhar muito, mas sim ter aprendido a encontrar sentido apenas quando estamos fatigados ou ter transformado o trabalho na nossa identidade.
É fundamental esclarecer que todos os feitos exigem dedicação e, inerentemente, tempo. No entanto, é crucial reconhecer que a produtividade e o sucesso não se medem pelo excesso ou pelo cansaço. De facto, diversos estudos científicos demonstram que pausas e ritmos mais lentos podem contribuir para resultados de maior qualidade, ao contrário de rotinas exageradamente preenchidas e dominadas pela pressão. Quando o cérebro é submetido a trabalho excessivo e contínuo, sofre uma sobrecarga que pode manifestar-se em fadiga, dificuldade de concentração e falhas de memória, podendo evoluir para problemas de saúde mental. Além disso, há indicações de que, com o passar do tempo, pode ocorrer uma alteração na estrutura física do cérebro, levando a distúrbios mais graves, como a Síndrome de Burnout e o envelhecimento precoce cerebral.
Lazer como resistência
Ao procurarmos abandonar a falsa ideia de que o cansaço é vergonhoso, somos conduzidos à importância do lazer.
O tempo de entretenimento devolve-nos a nós próprios; é uma pausa ativa onde recuperamos identidade, objetivos e criatividade. Para além dos efeitos mais evidentes — como melhor desempenho e produtividade —, o lazer contribui de forma significativa para a saúde física e mental. A construção da dimensão individual também se faz através de meios informais e de momentos de repouso, que permitem o divertimento, a aproximação social e o reconhecimento de novas oportunidades.
Por estas razões, não dispenses tudo aquilo que te dá gosto e que não está categorizado como trabalho. Qualquer atividade fora da esfera académica e/ou profissional tem o seu devido lugar na rotina, seja por um sentido pessoal profundo ou, simplesmente, porque sim. A verdade é que, embora seja indispensável trabalhar para criar e conquistar, nem tudo precisa de assentar num propósito maior.
Para concluir, refletir sobre a imposição oculta da cultura do overworking pode ser uma tarefa benéfica para reconhecer o modo como somos negativamente influenciados por rotinas irrealistas que nos chegam através de conteúdos digitais. Desacelerar pode ser sinónimo de acelerar, dependendo da perspetiva. Isto significa apenas que o lazer não deve ser censurado, quando é precisamente nele que encontramos muito do que nos torna verdadeiramente nós próprios.
“Porque temos a mania, na nossa cultura, de que vida foi feita para trabalhar ou prestar serviço e não que a vida foi feita para viver. “
– Agostinho da Silva (filósofo, professor e poeta)
